Saite da Vida

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domingo, 5 de dezembro de 2010

Vida de Cachorro
















Eu luto por ser cachorro... Se os meus donos me amam demais começo sofrendo por isso. Preciso do meu espaço, dos meus espaços.

Sou muito agradecido aos meus irmãos mais velhos, os humanos. Sinto-me pequeno em terra de gigantes, mas aos poucos fui-me fazendo amado e respeitado. Fui deixado muitas vezes sozinho por quase um dia inteiro preso num quintal pequeno, quando meu desejo era sair correndo, saltando pelo quintal desta casa. É um grande quintal com muita grama verdinha, principalmente na épocas das águas. Adoro me alongar por estes altos capins, à procura de lagartos. Quando posso ir mais longe vou pelo bambuzal e ali encontro porco espinho. Não que eu precise me alimentar, os meus donos me tratam bem, tenho comida e água à vontade. Mas sinto uma adrenalina, quando vejo aqueles espinhos louquinhos para pular em mim. Antes que pulem, eu chego primeiro, e rolo meu focinho naquela forma redonda, tentando abraçá-lo. Incrível porque de qualquer outro bicho tenho medo e saio correndo quando os vejo. Mas no ouriço não vejo ameaça, ele é tão compacto, tão redondo, que começo brincando, mas logo ao aproximar-me, me machuco e então a adrenalina sobe, e a luta começa. Nestes momentos lembro daquela lei do mais forte, que ouço os humanos se queixarem , os mais fracos certamente, e creio ser o mais forte. Então parto pra cima, mas sempre levo a pior. Todo espetado, ainda permaneço ali agarrado à minha vítima, que não faz nada, mas eu quero acabar com ela. Enquanto tenho força, fico ali até que me canso, então volto pra casa, acabado, todo ferido, deixando para trás a minha caça. Quando encontro um lagarto me saio melhor, e corro para casa, entrando porta adentro, pois quero mostrar o meu feito para minha família humana. Chego também muito cansado arrastando a presa por alguns metros, e sempre levo bronca. A minha mãe avó diz que não posso maltratar assim os meus irmãos menos evoluídos. Que preciso desenvolver o amor a toda criação . Explica-me que nós cachorros demos um salto evolutivo pois antes, num passado distante éramos animais ferozes, mas com a necessidade humana, fomos trazidos para dentro das casas, e assim desenvolvemos o nosso chacra cardíaco. Sinto mesmo uma coisa vibrando no meu peito, como se fosse um pequeno ventilador, saindo uma luz rosa em direção a ela. Também o meu olhar emite esta luz do amor. Olho-a ternamente, apaixonadamente, um amor maior que tudo... Sempre foi assim, mas percebo que apenas nos últimos anos ela se deu conta deste grande amor filial canino. Que bom ser cachorro, isto permitiu-me não desenvolver mágoa, rancores e sentimento auto depreciativo, assim esta relação já sobrevive há quatorze anos. Para um cachorro a minha idade equivale a noventa e oito anos, isto é sou quase centenário.
Nossa família não cultivou o hábito em querer me humanizar, vestindo-me de roupinhas e lacinhos, mas a minha mãe substituta Connie, levou-me para tomar um banho e fazer um tratamento anti pulgas. Percebi que o resultado foi bom, todos me pegaram no colo, deixaram-me rolar nos ambientes macios, sofás, camas e tapetes. Não é sempre que acontece tanta mordomia. Moramos em condomínio e as leis são rigorosas para cães, não podemos transitar pelas ruas. Antigamente quando saia, queria correr e fazendo xixi e cocô nos jardins da vizinhança. a minha mãe avó precisou ter muita paciência comigo, suportar as reclamações, e foram horas e horas de conversas, castigos e proibições. Mas o que curou-me mesmo destes maus hábitos foi a idade. Só agora mais idoso é que deixei de fazer trapalhadas. Se hoje caminho com ela, volto pra casa com o nervo ciático inflamado, mancando, como ela mesma, voltamos os quatro capengando, bem diz ditado, tal cachorro, tal dono. A vizinhança comenta, hoje em dia não vemos mais os cachorrinhos pelas ruas. Pudera, os velhinhos dão voltinhas mais curtas e supervisionadas. Sou um dos poucos cachorros do planeta terra com vida boa. Nunca houve excessos na minha criação, como eles mesmos são consigo mesmo, não fomos mimados e nem super protegidos. Tivemos quase sessenta irmãos filhos de pais e mães diferentes, todos doados. Fomos aprendendo juntos a lei do amor, compreendendo e evoluindo. Quem sabe um dia nos encontremos em outro estágio evolutivo, com estas mesmas pessoas que contribuíram para nossa evolução. Posso dizer que estou mais inteligente do que quando nasci sendo muito grato por este avanço. Sou mais amável, mais gentil e amoroso.
Deixo para você um au au amoroso.

8 comentários:

Angela disse...

Olá Maria Helena, passei pra desejar-lhe um ótimo final de Domingo, e maravilhoso início de semana! Lembrando que o texto ficou o máximo, parabéns, e um grande beijo.

manuel aldeias disse...

Gostei de ler este seu texto, está escrito de um modo que alem de nos fascinar, tambem nos prende do principio ao fim.
parabens.
Manuel Aldeias

Toninhobira disse...

Muito interessante este texto num verdadeiro relato.Bela construção Helena e quem sabe há mesmo este reencontro? Belo texto que faz reflexão e há que se repensar na arte de dar carinho e ser amavel sempre.Meu terno abraço de paz.Bom sempre ter esta magia que voce passa do positivo.Gosto de ter voce pela minha pagina. Boa semana para voces.Um beijo no coração.

Simone Bichara disse...

Que texto lindo!
Parabéns e muito obrigada por suas palavras, Maria Helena! As mandalas são expressões da minha alma para o universo.
Obrigada mesmo!
Um grande abraço,
Simone

Malu disse...

Passei para conhecer tuas páginas e vejo um texto tão adorável...
Gostei!
Abraço

Lúcia Soares disse...

Maria Helena, que lindo texto!
Não tenho mais cães em casa, mas conheço muita gente que os tem e vejo que precisam ser mais bem olhados.
Estão querendo "humanizar" os animais, embora n´so é que precisemos aprender com eles algumas coisas...
Vou recomendar seu texto.
Beijos!

manuel marques disse...

"Quanto mais conheço os homens mais gosto dos animais."

Abraço.

Nosso Cantinho disse...

Aqui sente-se o Amor...

Abraços!

Bíndi e Ghost

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